sábado, 14 de outubro de 2017

Memória da Tomada dos Sete Povos de Missões da América de Hespanha (Gabriel Almeida, 1806)



MEMORIA DA TOMADIA DOS SETE POVOS DE MISSÕES DA AMERICA DE HESPANHA
Que hoje se acham annexos ao dominio do principe regente de Portugal, nosso senhor: escripta em Lisboa, no anno de 1806, por Gabriel Ribeiro de Almeida.

Governava a capitania do Rio Grande de S. Pedro o tenente general Sebastião Xavier da Veiga Cabral, quando no anno de 1801 se declarou a guerra entre Portugal e Hespanha. Logo que lhe chegou esta noticia por Pernambuco, mandou pôr editaes, para que os povos conhecessem a nação hespanhola por inimiga. Não ha palavras com que se expresse o alvoroço de todos os habitantes d'aquella capitania, na esperança de fazerem com as armas na mão uma divisão de limites mais vantajosa. Recebida emfim a certeza por officio do vice-rei do Rio de Janeiro, feita a declaração da guerra com a formalidade do costume, mandou o governador apromptar as tropas, tanto pagas como milicianas; mas reflectindo que o meio mais essencial de conservar a disciplina nos corpos militares, e individualmente a satisfação de cada soldado pelo bem do real serviço, é tel-os bem pagos de seus soldos, e vestidos de seus uniformes, e que desgraçadamente aquella tropa estava reduzida á ultima miseria, não tendo por si mais que a sua coragem, pois que a thesouraria do Rio de Janeiro, por quem n'aquelle tempo eram pagos, lhe devia distinctamente doze para quinze annos de soldo, e outro tanto ou mais de fardamento, por unico recurso contou com a disposição dos povos para vestir a tropa, pois os via tão desejosos de guerra; deu as ordens aos chefes dos regimentos, tanto ao coronel Manoel Marques de Sousa, como ao tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, que convocassem as pessoas principaes do povo, e lhes expozessem a necessidade que havia de soccorrera tropa para marchar n'aquelle rigoroso. inverno a campanha. O mesmo espirito de patriotismo, que havia feito que os povos gostassem entrar voluntariamente na guerra, fez com que em poucos dias se vestisse a tropa; porque, os que não podiam dar dinheiro davam pannos, hois, cavallos, carros e escravos, offerecendo aos trabalhos tudo em beneficio da tropa e do estado, eisto continuaram a praticar em toda a guerra.

Dividido o exercito em dois corpos, o fez marchar para as fronteiras respectivas, uma do Rio Grande, e outra do Rio Pardo; a do Rio Grande, commandada pelo coronel Marques de Sousa, se compunha de oitocentas praças, a maior parte milicianos; e a do Rio Pardo, commandada pelo tenente eoronel Patricio José Corrêa da Camara, se compunha de setecentas praças, tambem a maior parte milicianos.

N'esta mesma occasião chegavam os mais poderosos d'aquella capitania a pedir licença ao governador para levantar companhias de gente de cavallo, e armal-os a sua custa, para sahirem contra o inimigo; e os mais pobres se juntavam em ranchos, e faziam o mesmo: e como todos levavam facil concessão, concorreu para o exercito gente innumeravel e resoluta, com faculdade de passar adiante dos exercitos, e fazer as hostilidades possiveis ao inimigo. D'esta sorte se apresentou n'aquella fronteira um exercito formidavel, não tanto pelo numero dos individuos, como pela disposição dos animes, e isto sem despeza do estado, e a maior parte d'estas tropas milicianas, esta a mais atrevida, robusta e activa nas suas campanhas, em quem os povos confiavam o seu triumpho.

Os hespanhoes, vendo os movimentos dos dois exercitos portuguezes, que marchavam para as raias, abandonaram as guardas, de maneira que já as nossas tropas não acharam nas ditas guardas senão as barracas, que logo demoliram, e começando pela lagôa Merim para o Norte, eram as guardas as seguintes: 1.a, a da Lagôa; 2.a, Quilombo; 3.a, S. José; v4.2, Santa Rosa; 5.a Santa Tecla; 6.a, Taquarembó; 7.a, Batovi; 8.a, S. Sebastião; as duas ultimas para a parte de Missões, e as mais da parte de Montevideo, confrontando com o Rio Pardo e Rio Grande; e da Lagoa Merim para o Sul, no estreito e terra que corre entre ella e o oceano, haviam duas guardas, que foram avançadas pelo capitão Simão Soares da Silva, e o tenente José Antunes, que do Rio Grande sahiram para atacar aquellas guardas, quando marchava o exercito para a fronteira; pois não deixou de lembrar ao governador que podia entrar o inimigo por aquelle estreito entre a Lagôa Merim e o oceano, e vir sorprehender a villa de S. Pedro, na ausencia d'aquellas tropas, cujos officiaes destruiram as ditas guardas, e se retiraram com o despojo que n'ellas acharam.

Retirando-se os hespanhoes das guardas mencionadas, se recolheram e reuniram em um forte de campanha denominado Serro Largo, e alli se fortificaram.

Entre os voluntarios paizanos que se offereceram para ir contra o inimigo, foi um d'elles Manoel dos Santos Pedroso, homem fazendeiro e soldado miliciano; e obtida a licença, marchou com 40 homens, de que se fez chefe, atacou e pôz em fugida a guarda de S. Martinho, e na posse d'esta, passou a saquear algumas fazendas; n'estas immediações se retirou com mais de 100 animaes vaccum e cavallar deixando em abandono aquelle posto; e o capitão Francisco Barreto, aproveitandose da occasião, não se descuidou de pôr immediatamente guarda nossa, pois é principal entrada para Missões. José Borges do Canto, e eu com 40 homens, fizemos a grande conquista de sete povos de Missões, que vou a referir.

O dito Canto tinha sido soldado de Dragões, e antes de ser disciplinado no seu regimento havia desertado, ha bastantes annos, e vivia entre os portuguezes e hespanhoes n'aquella vasta campanha povoada de uma nação de gentios charruas e minuanos, couto e refugio dos criminosos de ambas as nações. O dito José do Canto ora entrava na capitania do Rio Grande de S. Pedro, d'onde era natural, ora nas terras dos hespanhoes,a traficar contrabandos: em uma e outra parte passeava occulto, pois se tinha feito celebre com a sua vida extravagante e odiosa a ambas as nações; e sabendo que havia perdão geral aos desertores, se apresentou ao tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, e pediu licença para sahir a fazer alguma hostilidade ao inimigo; e obtida que foi esta, sahiu por entre as fazendas, convocando alguns seus conhecidos, e incorporou comsigo 14 homens.

Andava n'esta mesma diligencia um tenente da capitania de S. Paulo, chamado Antonio de Almeida Lara, que por seu negocio vivia n'aquella capitania; este tinha comsigo 12 homens, e se incorporou com o dito Canto, e sahindo ambos para a fronteira, chegaram á guarda denominada S. Martinho, onde eu estava destacado debaixo das ordens do alferes André Ferreira, que alli commandava sujeito ao capitão Francisco Barreto, que commadava aquelle districto, e se achava distante duas leguas, e respondia por elle ao tenente coronel Camara.

Na dita guarda me offereci a acompanhal-os, levando em minha companhia 6 camaradas da mesma, e no primeiro dia de marcha encontramos 8 homens, commandados por Antonio dos Santos, que andava explorando a campanha, e unindo-se tambem a nós, com estes completaram 40 homens de armas, com os quaes se fez a conquista, que vou descrevendo.

Entrámos n'esta campanha no mez de Agosto na força e rigor de inverno, que foi a causa da nossa felicidade em todos os successos. No primeiro dia fizemos 10 leguas decaminho, e pela noite ser tenebrosa, tomámos a guarda denominada S. Pedro, sem sermos sentidos, e sem dar tempo a pegar em armas; achamos alli 30 indios, commandados por um hespanhol, que pozemos em prisão, e os indios em liberdade, e os capacitámos que a guerra era com os hespanhoes, e não com elles. Com isto se pozeram em socego, e nos fizeram bons officios; não lhes consentimos saqueio algum por não desgostal-os, e unicamente nos refizemos de cavalgaduras, pois n'este lugar haviam mais de 1,000 animaes, entre vaccum e cavallar, e seguimos a nossa viagem com o designio de voltar quando podessemos dar noticias certas das forças que havia n'aquelles povos.

N'este lugar me pediu o Canto quehouvesse de tomar parte no commando e direcções d'aquella empresa, pois se confundia com o não entendera lingua d'aquelles indios, e eu os ontendia perfeitamente; consenti na proposição, e tratamos consultar mutuamente em tudo quanto nos fosse preciso.

No terceiro dia de marcha avistámos algumas armas muito ao longe, e vimos que se encaminhavam para a nossa parte; fizemos-lhes emboscada em um desfiladeiro, e nos cahiram prisioneiros, sem haver a menor resistencia. Estes homens eram exploradores da nação inimiga, que circumlávam aquella campanha para fazer aviso de toda a novidade que encontrassem. O que os commandava, pela portaria que me apresentou, mostrava o grande conceito que d'elle fazia o governo, e por fim era um insigne salteador, desertor das nossas tropas, chamado João Ignacio, que estava aggregado ao serviço de Hespanha; e logo que foi reconhecido, o conduzimos preso pela inconfidencia e traição. No seguinte dia tomamos o porto denominado Santo Ignacio; aqui havia uma pequena guarda em resguardo de 500 cavallos; n'este lugar fomos instruidos do estado em que estavam aquelles povos pela informação seguinte. Disse-noso que commandava que dalli distante quatro leguas havia uma guarda denominada S. João Merim, onde havia 10 hespanhoes escolhidos e armados, e que tambem havia muita cavalhada, boiada mansa, e gado de munição dos povos, e 60 indios para o seu costeio; e do dito S. João Merim a seis leguas estava um acampamento, que se tinha principiado havia oito dias, e era para disciplinar as recrutas, e para acampar as tropas que alli se haviam de reunir, vindas da cidade da Assumpção, de Paraguay, e dos mais povos além do Uruguay, para marcharem contra os dominios de Portugal, e que aquelle acampamento distava uma legua da capital.

Sabida esta noticia, resolvemos atacar o dito acampamento, para o que essa noite adiantei-me com 20 homens, deixando outros 20, para marcharem na manhãa seguinte com o Canto, e mais gente d'armas. Essa noite puz em cerco a guarda referida, e ao aclarar o dia puz tudo em prisão, favorecendo me o escuro da noite horrorosa tempestade, que facilitou minha resolução; e chegando meu companheiro Canto, que tinha ficado como já disse, cuidámos em viajar, pondo muitas precauções essa noite, para que não fosse algum aviso ao acampamento; marchamos as ditas seis leguas, e nos avisinhámos a elle.

Era este sitio em terreno alto, resguardado de um matoe dois caudalosos arroios, em cujas entradas não haviam guardas avançadas; pois parecia-lhes impossivel entrarem tropas portuguezas sem serem sentidas pelas guardas ou exploradores da campanha, pois d'este acampamento ás nossas raias dista trinta leguas; por este descuido em que estavam foi nossa entrada feliz.

Depois de ter explorado o acampamento, dispozemo-nos para a acção, pois vinha rompendo o dia. Pozemo-nos em linha de batalha a tropa que levámos, que se compunha de quarenta praças, como em outra parte já disse, commandando eu e José do Canto. Haveria, pouco mais ou menos, 500 passos de distancia entre nós e o dito acampamento, e já teriamos avançado a metade, quando, picando a marcha a toda a brida, rapidamente nos fizemos senhores d'aquelle acampamento, sem haver um grito de «armas» nas sentinellas;e como sahissem alguns tiros da barraca do commandante, que era D. José Manoel de Lascano, foi preciso fazer fogo, e sempre houve 14 mortos e bastantes feridos; e da nossa parte houve somente um camarada ferido. 

Havia n'este acampamento 100 hespanhoes de armas, e 300 indios, os quaes ficaram livres da hostilidade d'este assalto, por estar o seu abarracamento algum tanto separado do dos hespanhoes. Alcançada a Victoria, ao aclarar do dia reflecti eu que os indios estavam suspensos, e aproveitando-me da occasião, por ver o susto em que estavam, lhes fiz uma falia no seu idioma, conforme as mais vezes tinha praticado; animei-os, e lhes fiz ver que a guerra não era com elles, e para mais os attrahir, o pouco despojo que havia n'este acampamento, consultando com o Canto, foi repartido por elles, e isto lhes fez tomar o expediente de se unirem ás nossas armas; e vendo-nos munidos d'estes 300 homens, consultamos investir a capital, que estava á vista. Reparti então os novos soldados em pelotões, e avançámos ao dito povo de S. Miguel. Depois despachámos uma parte ao capitão Barreto, dando-lhe conta de tudo circumstanciadamente, e avisinhámo-nos á capital; não a levamos de escalla por ter artilheria, mas pozemol-a em sitio, cujas escoltas e patrulhas, que dirigiamos a elles, a inquietavam em diversos lugares dos seus muros. Este sitio foi posto ás 11 horas do dia, e sc divulgou tanto n'aquellas circumvizinhanças. que, quando foi á noite, achamo-nos com mais do mil indios debaixo do nosso commando. 

No dia seguinte despachamos outra parte, em que davamos conta de estar a capital d'aquelles sete povos em sitio, e que nos viesse soccorro. Apertamos o sitio de tal- fôrma, que, dentro em tres dias, se rendeu por uma capitulação, feita e assignada por nós e o tenente coronel D. Francisco Rodrigo, que alli residia, e governava os sete povos. Entramos n”este povo, tomando d'elle posse, e se retirou o dito D. Francisco para odo rio Uruguay, levando comsigo duzentos homens, que era a guarnição que alli havia.

D'este acontecimento demos parte ao nosso chefe, que era o capitão Barreto, e já eraa terceira, que davamos, sem termos resposta nem soccorro.

Pondo este povo em tranquillidade, dirigi oflicios aos mais povos pertencentes aquella conquista, cujos commaudantes não tiveram duvida em se render, pois viam a sua capital tomada.

Com isto entramos em detalhe de governo, tomando posse dos povos que estavam mais immediatos, que vem a ser S. Lourenço, S. João, S. Luiz, S. Angelo, para cujos povos marchei, deixando com o Canto vinte homens de guarda na capital, e levando comigo outros vinte.

Chegando aos ditos povos, cuidei logo em recolher os estandartes das camaras, fazendo ver que não deviam ser arvorados mais, porque odominio hespanhol tinha cessado, cujos estandartes entreguei ao fallecido governador.

Ainda que as circumstancias da guerra não me permittiam demora no recebimento d'aquelles povos, comtudo sempre falhava um dia em cada povo, e fazia por contentar ao publico, assistindo aos seus festejos, empenhando-me em' contentar aos reverendos curas das igrejas, mostrandolhes muita benignidade, e capacitando-os que seriam respeitados das nossas tropas; e roguei-ihes juntamente que não desamparassem suas igrejas.

Esta politica que usei, foi o motivo dos ditos padres se conservarem no mesmo cuidado d'aquelle grande numero de almas que tinham a seu cargo, não obstante terem o passo livre para seretirarem, segundo as condições da capitnlação e ainda alli se conservaram até a minha retirada d'aquelles povos, que foi em 1805. Acabada a diligenciado recebimento d'aquelles povos, recolhi-me a S. Miguel.

Manoel dos Santos Pedroso, que tinha feito o saque na guarda de S. Martinho, entrava novamente com os 40 homens que o acompanhavam, e chegando ao povo de S. Miguel, como já o visse tomado, pôz-se em consulta com os seus camaradas, e reflectindo eu n'isto, lhe fiz uma falia, que nos reunissimos, pois incorporados todos eram maiores as forças, e que eramos juntamente vassallos de um mesmo soberano. Respondeu-me com palavras equivocas, e no mesmo dia seguiu para o povo de S. Nicolau, que ficava quasi nas margens do rio Uruguay, onde esperou o tenente-coronel que se retirava, fiado nas condições da capitulação, e por consequencia sem susto, e antes de chegar ao rio Uruguay, o atacou uma noite e a seu salvo o fez prisioneiro, e pòz em fugidatodaa genteque o acompanhava, ficando senhor de toda a equipagem, fazendo voltar e conduzir para traz por uma guarda de homens sem pundonor algum, pois o insultaram n'esta conducção para lhe tirarem quanto trazia de precioso.

N'esta occasião chegavamos, eu de tomar posse dos povos, o sargento-mór de Dragões José de Castro Moraes com tropas em soccorro, e o sobredito tenente-coronel hespanhol preso, e todos nos juntámos em S. Miguel. Examinada a causa d'aquella prisão foi respondido que quem tinha feito aquella capitulação não eram os officiaes, e por consequencia o dito Santos mandava preso para o Rio Pardo ao dito tenente-coronel. Esta acção nos foi muito sensivel, mas como já estava o official superior presente, a elle competia prevenir e remediar tudo. O capitão Manoel Carneiro e o tenente Francisco Carvalho foram os que se incumbiram e empenharam a fazer com que os soldados do dito Santos,que conduziamao tenente-coronel, entregassem o que lhe tinham tirado, O sargento-mór Moraes olhava tudo com refinada politica, estudando os meios de escurecer os nossos serviços, e lembrando-se ser o Canto soldado do seu regimento, quiz puxal-o ao esquadrão, etiral-o do commando d'aquella conquista, não fazendo apreço dos nossos serviços.

O Canto, mal costumado na sua vida dissoluta a soffrer e ainda mais com a vaidade de conquistador, cuidou em prevenir-se. e assentou defender-se comas mesmas armas com que tinha acommettido ao inimigo: eu reflectindo que a minha prudencia não era bastante para remediar tantas contraversias, tomei o expediente de passar ao Rio Grande, a dar conta ao governador, não d'aquellas intrigas, mas sim da conquista.

O tenente coronel hespanhol, sabendo que me dirigia a dar esta conta rogou-me lhe conduzisse uma carta, ao que eu não tive duvida, n'ella se queixou do dito Santos ao governador, facto que fui saber no quartel-general. Tomou contada nossa conquista o sargento-mór José de Castro Moraes, não com a regularidade devida, mas como quem estava com a disposição que dissemos; e eu marchei para a villa do Rio Grande, aonde cheguei em occasião que já estava o governador doente; entreguei ao ajudante das ordens José Ignacio da Silva os estandartes, a capitulação, e os mais documentos que levava, como tambem acartado tenente coronel hespanhol. 

O Governador, pesando o valor de nossos serviços, fez n'esta occasião condecorar a José Borges do Canto com o posto de capitão de milicias, e eu em tenente da mesma companhia; e deu ordem para que fosse nomeado para alferes o que fosse demais merecimento dos 40 individuos a quem se devia aquella conquista; e foi nomeado Francisco Gomes de Mattos. Tambem deu ordem o governador para que fosse preso Manoel dos Santos Pedroso, pelo insulto feito ao dito D. Francisco, governador que tinha sido d'aquelles povos; o que não se efféctuou com a morte do governador, que foi d'alli a poucos dias; mas antes, depois de ter dado esta ordem, o mesmo governador o condecorou como posto de tenente de milicias, por condescender com a vontade e proposta do tenente coronel Camara, que mandou ao furriel José Maria com uma promoção ao Rio Grande, para que a assignasse antes de morrer, em cuja occasião foi incluido o dito Manoel dos Santos. 

Eu e os meus camaradas bem conheciamos a José do Canto, que era homem intrepido e valoroso; porém, ha muitos annos desertor, e por consequencia indisciplinado, não sabia do terreno, ignorava a lingua, embaraçado em manobra, e era d'estes homens determinados, mas sem deliberação em acção; comtudo, a fama que tinha adquirido nas suas extravagancias fez com que o preferissemos no commando, porque tambem não tinhamos assaz conhecimento das suas qualidades, pois nem ler nem escrever sabia, e assim o tenente e eu não duvidámos ceder-lhe, para evitar desordens, e ultimar o fim da nossa carreira. O tenente Lara, apesar das suas virtudes, não tinha nascido para a guerra; a sua constituição, e talvez educação, o desviavam da campanha: essa a razão porque não apparece nos combates, e se occulta n'esta memoria.

No em quanto José Borges do Canto e eu conquistavamos os povos de Missões, não estava o exercito ocioso; estando o coronel Manoel Marques em uma guarda abandonada pelos hespanhoes, denominada da Lagòa, teve aviso que além do rio Jaguarão apparecia um grande corpo de inimigos; despediu o capitão de milicias Antonio Rodrigues Barbosa, o capitão Antonio Xavier de Azambuja, e o alferes Hyppolito de Couto, com duzentos e quarenta homens de armas, a encontrar-se com o inimigo, e em dois dias de campanha se toparam. 

Entrando os ditos officiaes em consulta para fazerem aquelle ataque, oppôz-se a isto o capitão Azambuja, dizendo que ia primeiro observar em um alto se o inimigo trazia artilheria, e se retirou, levando comsigo a sua companhia. Conhecido pelos outros o medo, consultaram os dois officiaes, e entraram na acção, com tal valore intrepidez que venceram e destruiram o inimigo, ficando com a victoria d'esta acção o capitão Antonio Rodrigues Barbosa e o alferes Hyppolito de Couto. Houveram cincoenta mortos, setenta prisioneiros, entre estes dois capitães e um alferes; dos nossos só morreu um cabo de esquadra.

Depois d'esta acção fez o commandante Manoel Marques de Sousa marchar aquelle exercito para a fortaleza do Serro Largo, onde dissemos tinham-se ido incorporar as guardas hespanholas, quando abandonaram a sua fronteira; e chegando o dito coronel a fortaleza, combateu-a e tomou-a por uma capitulação, retirando-se a tropa hespanhola; entregaram-lhe aquelle forte com quatro peças, munição de guerra e cinco mil pezos duros em prata. A tropa que guarnecia esta fortaleza era o seu numero setecentos e sessenta homens, pois tinham sabido outros tantos d'esta mesma praça commandados pelo coronel Quintana, com o designio de ir atacar a fronteira do Rio Pardo, quo não teve effeito, como adiante se dirá.

No segundo dia d'esta conquista se pôz o nosso exercito em retirada para o rio denominado Jaguarão. Deixo aos politicos decidir sobre este modo de proceder. Os sete povos de Missões conquistados com um punhado de homens, e por meros soldados, acham-se debaixo dos dominios de S. A. R.; e aquella fortaleza do Serro Largo, conquistada por aquelle coronel, munido de artilheria, e com 800 homens, está possuida dos hespanhoes, que em poucos dias se senhorearam outra vez della. 

Retirado o nosso exercito, tanto que passou o rio Jaguarão para a nossa banda, o sobredito coronel licenciou a tropa, deixando só 200 homens de guarnição n'aquelle passo, commandados pelo tenente-coronel Jeronimo Xavier de Azambuja, e se retirou para o Rio Grande, por saber estava o general á morte. Este modo de obrar, de licenciar a tropa, e entrar o inimigo nesta mesma occasião de posse da fortaleza, que tinha perdido, foi digno de reparo a todos os prudentes, e ainda ao povo; seja o que fôr, eu não me proponho senão a dizer a verdade do que aconteceu.

Apossado o inimigo da fortaleza, adiantaram-se mais, até chegarão passo do Jaguarão; e como o achassem com os 200 homens que dissemos, parou o exercito inimigo, e mandou seu commandante, que era o marquez de Sobre Monte, dizer ao commandante d'aquelle passo, que era o referido Azambuja, que logo e logo lhe désse o passo livre: respondeu este por uma carta (pois o marquez tambem tinha escripto ) que o seu commandante e governador estava na villa do Rio Grande, que S. Exc. lhe concedesse tres dias para lhe dar resposta; e sendo-lhe concedidos, no mesmo instante deu parte ao coronel, e este para Porto Alegre ao brigadeiro Francisco João Rici, que commandava aquella repartição, enão se deu resposta ao marquez, como se promettêra; mas entretanto se enterrou o governador Sebastião Xavier, e tomou contado governo o brigadeiro Rici, e desceu immediatamente para a villa do Rio Grande, onde achou os povos em grande confusão, dispondo-se para passarem a S. José do Norte, antes que entrasse o inimigo; pois sabiam da retirada do exercito, e não havia providencias para encontrar o inimigo na fronteira; mas, com a chefia da do novo governo interino a esta villa, se pôz tudo em socego com a providencia que se veio dar. 
Fez immediatamente marchar para Jaguarão o coronel Marques, levando consigo as tropas do seu commando; fez marchar tropas a engrossar as guardas de Itaim, como tambem a do Alhardão, e no estreito da terra, entre a lagôa da terra e o mar oceano, pelo receio que havia de entraroinimigo a surprender a villa fez descer da fronteira do rio Pardo o segundo corpo do exercito, que commandava o tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, com ordens de acommetter o inimigo, ou a reunir-se ao exercito que commandava o coronel Marques, a quem tambem deu a mesma ordem. Depois que deu estas providencias, dispunha-se o mesmo brigadeiro a sahir para a campanha, quando n'esta occasião chegou a paz; tinha dado todas as providencias que podia dar um bom e experiente general.

Marchava o exercito da fronteira do Rio Pardo para Jaguarão, e só lhe faltavam dois dias de marcha, para se ver com o que commandava o coronel Marques, quando receberam os dois commandantes ordem do brigadeiro e governador que não executassem a ordem, que lhes tinha dado, de acommeter o inimigo; mas sendo avisado o brigadeiro que o marquez de Sobre Monte, general do exercito hespanhol, sem attenção ao beneficio da paz, perseverava no mesmo projecto, e em espirito armado, o dito brigadeiro escreveu nos termos seguintes: — Que elle havia ordenado ao exercito portuguez que passasse o rio Jaguarão para acompanhar o exercito de S. M. Catholica, que S. Ex. commandava até Montevidéo, mas que suspendêra a execução d'esta ordem, por observar a que tinha de S. A. R. o principe de Portugal, que havia celebrado com S. M. Catholica tratados de paz; mas que agora via S. Ex. perseverar na intenção de passar áquem de Jaguarão, sem attenção as mesmas razões da paz; e que isto lhe não parecia bem: com tudo, se S. Ex. era servido pôr em execução seu intento, podia vir; mas que advertisse que havia passar pelo dezar de não o concluir, em quanto as aguas do dito Jaguarão podessem levar os cadaveres dos seus soldados; e quando estes fizessem váo, por onde o exercito hespanhol passasse com as armas na mão para entrar nas terras que ao presente são da coroa de Portugal, e a pessoa de S. Exc. viesse na retaguarda, que tivesse a certeza que não havia voltar para o seu quartel, porque o acharia perpetuo, e todo o exercito do seu commando nas mesmas terras de Portugal.

Foi tal a aceitação d'esta carta que, com maduro e prudente conselho, cuidou o marquez em se retirar. Via uma carta cheia de razão, via que as tropas portuguezas anhelavam pela peleja, e via finalmente uma serie de continuados estragos, que haviam os hespanhóes experimentado; a sua retirada foi a decisão, e n'esta fórma finalizaram as suas campanhas as tropas d'esta fronteira, e ficou o rio Jaguarão por divisa, ou servindo de limite, ainda que podia ser pelo Serro Largo.

Em quanto fiz a viagem, que já disse, ao Rio Grande, esteve o Canto em S. Miguel até a minha volta; e os hespanhóes a reunirem tropas, para retomar os povos perdidos, e o sargento mor José de Castro Moraes, e a seu exemplo a mais tropa, cuidava mais em locupletar-se, que na conservação d'aquella conquista.

Chegando eu ao povo S. Miguel na volta do Rio Grande, tinha tomado conta do governo politico daquella nova conquista o sargento mór José de Saldanha, e retirou-se o sargento mór Moraes, o capitão Manoel Cancro, o capitão José de Anxita, o capitão Alexandre Guedes, e parte da tropa que guarnecia estes povos, e se recolheram para a fronteira do Rio Pardo, ao corpo de tropa que commandava o tenente Coronel Camara, onde n'esta occasião havia menos perigo; e pelos choques ou ataques que succederam se verá.

O sargento mór Joaquim Felix fez sua residencia em S. Nicolau, tres leguas distante do rio, e o commandante da tropa foi residir em S. Francisco de Borja, vinte leguas ao Sul do dito S. Nicolau, uma legua distante do rio; defronte de S. Francisco de Borja está o povo S. Thomé, além do rio um quarto de legua distante da fronteira hespanhola, e o rio por meio. Entre estes dois povos, no passo denominado S. Marcos, houve muitas hostilidades, e d'este povo a S. Borja para baixo a Sul tinhamos que defender mais de vinte leguas, que toda esta fronteira era invadida do inimigo, que vinham a ser mais de quarenta leguas de fronteira que deviamos defender só quatrocentos homens contra mais de dois mil, que já se tinham reunido para a reconquista dos povos. 
Fui com ordem de commandar a minha companhia com que tinha feito a conquista, por se achar doente o capitão, e ter ficado no povo S. Miguel. Tomei quarteis em S. Nicolau, e d'alli a poucos dias marchei em soccorro ao tenente Manoel dos Santos Pedroso, que se via atacado por um corpo numeroso de inimigos; e como achasse valor n'aquelle official para defender aquella entrada, e acudissemos com tempo, não pôde fazer seu desembarque.

Alguns dias ajudei a defender aquella entrada, no em quanto houve varios choques, que vou a referir.

No passo da Cruz, que dista para baixo de S. Borja mais de vinte leguas, foi atacado o tenente Francisco Carvalho da Silva, e o alferes João Antonio da Silveira, por um corpo de inimigos. Estes dois officiaes se portaram com muito valor,defenderam esta entrada com quarenta homens,e perderam um camarada n'este ataque; mas destruiram e venceram o inimigo, onde houve nove mortos e bastantes feridos da parte do inimigo.

Passados poucos dias, no passo de S. Marcos, entre S. Borja e S. Thomé, foram duas vezes as nossas guardas destruidas, mas sem perda de gente. Este lugar foi o mais invadido e perigoso, como se verá pelos casos acontecidos. Foi atacado no passo de S. Lucas o tenente Manoel dos Santos Pedroso por um corpo numeroso de inimigos; este lugar dista dezoito leguas acima de S. Francisco de Borja, em cujo ataque se distinguiu muito o alferes Manoel Padilha. Defenderam este lugar valorosamente com cento e sessenta homens, e não só destruiram o inimigo, onde morreram um ajudante de artilheria e dois soldados, como tambem lhes tomaram duas peças de artilheria que traziam. No passo de Santa Maria no Uruguay foi atacado o cabo de esquadra Bernardino da Silva; ainda que perdeu um camarada, defendeu esta entrada valorosamente.

Continuaram os choques no passo deS. Marcos; e foi atacado o furriel de milicias Victor Nogueira da Silva por um corpo demais de cem homens, achando-se só com quatorze; cercaram-o entre umas larangeiras, onde se entrincheirou, e sustentou este fogo em quanto lhe durou a munição. Durou este combate perto de uma hora, defendendo-se valoroso, na esperança de ser soccorrido da nossa tropa, que ouvia os tiros no povo de S. Borja; mas quando chegou o soccorro, já foi tarde; tinha-se-lho acabado a munição e mortos dois camaradas, e entregou-se prisioneiro de guerra, tendo feito grande destroço no inimigo, e já tinham dado á vela as barcas que o conduziam para além do rio Uruguay preso.

Muito sensivel nos foi este successo, pois eram os primeiros que se viam vencidos e presos n'aquella fronteira de Missões. Custou a suster as nossas tropas para que não seguissem a resgatal-os, entrando pelas terras do inimigo, onde eram grandes as forças a respeito das nossas: apesar de não termos n'este porto barcas, com tudo sempre houve seis homens que intentaram a passagem em uma pequena barca que descobriram, o occultamente se embarcaram uma noite para executar o seu façanhoso projecto. E como fosse o seu desembarque ao amanhecer, foram sentidos e atacados, onde elles sustentaram por algum tempo este fogo; e conhecendo a temeridade, se retiraram debaixo do mesmo fogo, depois deterem feito alguma hostilidade no inimigo, e sem perigar nenhum d'elles; mas, sendo seguidos por duas barcas, antes de vencerem o rio, iam sendo abordados, e certamente teriamos que sentir, pois estes homens eram de valor intrepido, e morreriam sem se entregar á prisão; mas valeu que já as nossas balas alcançavam, e sendo soccorridos foram salvos.

Os que entraram n'esta acção foram um furriel de milicias Raymundo de S. Thiago, e cinco soldados milicianos. Com tantos choques n'estas immediações de S. Marcos tive ordem para ir fornecer este lugar, onde foi preso o nosso heróe Victor. 
Cheguei alli com a minha companhia, que se compunha de quarenta praças; observei que além do rio havia um forte com artilheria, e que a sua praça de armas estava immediata: o desembarque para a nossa parte era inevitavel, pois tinha mais de uma legua de praia, e toda era desembarque. Vi o grande destroço que tinham feito as balas nas larangeiras, onde estiveram intrincheirados os nossos camaradas, antes de serem presos, e d'onde faziam o seu fogo. Formei minhas idéas; mandei vir sessenta indios, para correr com os avisos, armar barracas, abrir picadas, dzc. Retirei-me alguma cousa para a retaguarda, para me servir de forte um grande barranco do rio Camaquam, que faz barra no Uruguay, e allime acampei; ordenei as minhas guardas e sentinellas, as quaes eram visitadas por ruim, pois passamos noites em vigia com cartuxeira, espada cingida, e arma na mão, fazendo executará risca as ordens, com o exemplo que dava; lembrava-me dos descuidos em que tinha achado os inimigos, quando os tinha surprendido, e assim toda a cautela me parecia pouca. Haviam passados 39 dias do meu destacamento, quando, estando para amanhecer o dia 23 de Novembro, recebi parte quc estava passando o rio um grande corpo de inimigos. Tanto que recebi esta parte, mandei fazer signal; immediatamente se recolheu a cavallaria; puz toda a minha companhia a cavallo, e depois de ter passado revista, animei-os de novo, segurando-lhes que eu seria o primeiro em receber os golpes dos inimigos. Fiz aviso ao povo de S. Borja, onde tinhamos alguma tropa, e como não apparecesse o inimigo. até aclarar o dia, cuidei em buscal-o; e quando foi pelas 5 horas da manhãa estive na sua frente com 112 homens, pois já me tinha vindo soccorro. Topei-me com o inimigo na barra de Camaquam, sobre o barranco do rio Uruguay; coma minha chegada pôz-se em armas, e em linha de batalha com 100 homens na frente, e 50 nos flancos, e a sua retaguarda contra o rio, onde tinha o seu desembarque e munição de guerra.

No soccorro que me veio de S. Borja, vieram 6 officiaes, e como se achasse alli o capitão José Borges do Canto, a elle competia o commando d'esta acção, por ser de maior patente, e ás suas ordens me entreguei. Pozemo-nos em consulta, e como esta se demorava, e não se resolvia nada, pois tudo era fazer ver o grande perigo, as grandes forças do inimigo, a desigualdade do terreno, etc., com esta demora me separei d'estas conferencias, e appliquei-me a observar os movimentos do inimigo. Das cinco horas que alli chegamos até as dez não se ordenava este ataque: e observei que embarcavam tropas em soccorro, e se não atacavamos n'esta occasião, menos depois de terem passado maiores forças.

N'esta occasião offereci-me para entrar n'aquella acção, resoluto a dar a vida em defesa da patria e dos estados do nosso soberano, e sendo aceita a minha proposta pelo capitão e mais officiaes, entrei n'ella pela forma seguinte: — o tenente João Machado e o alferes André Ferreira, com trinta homens de cavallo na frente; o tenente Filippe Carvalho, com o alferes Manoel Carvalho e o alferes João Antonio, com outros trinta no flanco direito; os da frente fazendo fogo no mesmo terreno, a divertir e entreter os inimigos; e os do flanco direito para entrar na acção com o meu signal, ou para a abordagem das barcas. 
O capitão José Borges, com alguns camaradas de reserva, para acudir aonde visse mais perigo, e eu com quarenta homens, ataquei ao flanco esquerdo, que logo se pôz em confusão e fugida. Avanço rapido á retaguarda, e tomo a munição de guerra; passo ao flanco direito, e faço-lhe o mesmo. O tenente e alferes nomeados n'este posto, e o capitão com o meu signal entra na acção, e fazemos fogo á frente, onde os nomeados tenente e alferes sustentam o seu posto. Tanto no fogo que faziam, como com algumas escaramuças entretinham o inimigo. Todos incorporados fizemos fogo mais vivo, e ficam os inimigos vencidos e derrotados, e se declara a victoria d'esta acção por minha; publicada por aquelles honrados officiaes, como consta dos documentos que tive a honra de apresentar a S. A. R.

Estava além do rio Uruguay o governador d'aquella fronteira inimiga, que insistia em querer mandar soccorro; era o tenente coronel D Francisco Belmudes, e por estar immediato aquelle povo a S. Thomé, estava aquella praia coberta de povo, que tinha baixado alli a presenciar o ataque, e se retirou bem descontente com o destroço dos seus patriotas. Acabada esta gloriosa acção, recolhemo-nos para S. Borja, com setenta e tres prisioneiros, ficando no campo da batalha sessenta mortos, e da nossa parte houve tres mortos e quatro feridos: o despojo consistiu em duzentas armas de fogo, algumas espadas, e bastante munição de guerra.

Este foi o ultimo ataque que tivemos n'aquella fronteira de Missões; logo depois nos chegou a paz, e na declaração d'ella vi grande desgosto e sentimento nas tropas. D'esta forma ficaram aquelles sete povos e o seu grande territorio annexo ao dominio de S. A. R., ficando por divisa o rio Uruguay, tomados e defendidos sem despeza do estado; mas sim á custa de seus vassallos, não obstante ter-se reunido n'aquella fronteira mais de dois mil homens, commandados pelo coronel Espíndola. vindos da cidade d'Assumpção de Paraguay.

Ficou o sentimento aquelles vassallos de Portugal de não ter tempo de levar ao inimigo até além do Rio da Prata, em que lhe não acham difficuldade alguma, senão a vontade do seu soberano, e aceitação de seus serviços, para serem remunerados. Chegou tambem a ordem para as tropas se retirarem, dirigida pelo governador; encontraram ao tenente Camara, com o corpo de tropas que commandava, distante do acampamento de Jaguarão dez leguas.

Foi indizivel a pena de toda aquella tropa com a certeza da paz, pois via a sua retirada sem fazer acção alguma, e com a lembrança de que tivera o inimigo a vista, e não tivéra o gosto de medir as armas; foram aquelles setecentos homens que dissemos que sahiram do Serro Largo, para atacar a fronteira do rio Pardo, commandados pelo coronel Quintana.

Estava aquella columna que commandava o tenente coronel Camara na guarda denominada - S. Francisco - duas leguas de Batovi, quando teve parte, pelos nossos exploradores d'aquella campanha, que aquelles setecentos homens, que fica dito, vinham com desígnio de entrarem. Immediatamente pôz-se em marcha, e o foi encontrar, o qual encontro, foi no passo denominado - Rosario- do rio de Santa Maria: estiveram quasi á falla, e chegou o exercito inimigo a atirar alguns tiros de peça; mas estava crescido este arroio, e era ja tarde, e por esta razão não tentaram a passagem, deixando-a para o dia seguinte. 
Naquella noite perdeu o exercito inimigo o valor, e se pôz em retirada. O tenente coronel Camara, commandante da nossa tropa, não lhe picou a retaguarda,o que foi muito sensível áquella; com tudo e é de louvar que naquella campanha se conservasse com os incommodos das suas molestias, andando sempre entre os medicamentos. 
As tropas que guarneciam a fronteira dos povos de Missões tambem tiveram ordem para se retirar, depois da publicação da paz; e assim finalizou a guerra n'aquella capitania. Eu sou testemunha ocular dos factos, ou da maior parte d'elles, que n'esta Memoria relato; e deixo de expender circumstancias minimas por não ser diffuso, e cançar a paciencia do meu leitor das acções gloriosas que se manobraram nos povos de Missões, em que tive parte, ou fui principal agente. Fiz patente a S. A. R., em requerimento que offereci, e em todo o tempo provarei a verdade dos feitos até com os mesmos hespanhoes.

Lisboa, 18 de Setembro de 1806. — Gabriel Ribeiro de Almeida.

REVISTA TRIMENSAL DE HISTORIA E GEOGRAFIA ou JORNAL DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRASILEIRO, N.º 17, Abril de 1843.
pp. 3-21

https://books.google.pt/books?id=RGNJAAAAcAAJ

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